
“O que você faria se tivesse que deixar tudo para trás? Ir para um lugar que não conhece, cruzar fronteiras – muitas vezes perigosas, deixar sua família, sua profissão?”. Foi com estes questionamentos que Karine Wenzel, Coordenadora do Fórum Empresas com Refugiados, iniciativa do Pacto Global da ONU e da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), iniciou sua fala na programação do CONCARH.
Karine integrou a programação do evento de recursos humanos, realizado esta semana em Florianópolis, em uma conversa com Cristiane Costa, Gerente Executiva de RH da MBRF. As especialistas destacaram a grande oportunidade que a contratação de refugiados e migrantes representa e refletiram sobre os desafios e os cuidados que as empresas devem ter.
O debate é importante em um momento em que Santa Catarina registra recorde na empregabilidade de profissionais vindos de outros países, liderando a geração destes empregos formais no país. De acordo com levantamento da Federação das Associações Empresariais de Santa Catarina (FACISC), entre janeiro e maio de 2026, o estado registrou 10,2 mil novas carteiras assinadas por pessoas de outros países. Os dados também revelam o perfil dessa força de trabalho. Os venezuelanos representam 43% do saldo de vagas, seguidos pelos haitianos, com 23%, e pelos cubanos, com 19%.
Bom para as empresas, bom para as pessoas
A MBRF, empresa global do setor de alimentos, criada a partir da união entre a Marfrig e a BRF, tem atuado com a contratação de migrantes e refugiados desde 2010. Cristiane destaca que o movimento é necessário em virtude da escassez de mão de obra. Hoje, são 14 mil estrangeiros (migrantes e refugiados) operando em 20 localidades no país.
A empresa sente também resultados na retenção: 30% dos profissionais já atuam há mais de 5 anos na empresa e são inúmeros os casos de 10 anos de vínculo. Segundo Cristiane, as pesquisas mostram que o engajamento também é relevante, com brasileiros registrando 89%, índice que chega a 94% para venezuelanos e 96% para haitianos.
Para Karine, por trás de cada número de refugiado há uma pessoa que busca reconstruir a vida. “Cada empresa que abre uma vaga tem o benefício da contratação, mas também colabora na reconstrução de autoestima, na retomada da autonomia socioeconômica dessa pessoa”, defende.
As especialistas indicam o Fórum Empresas com Refugiados, do Pacto Global da ONU - Rede Brasil e ACNUR, como ponto inicial para este processo. A MBRF integra o Fórum, que disponibiliza formação para as empresas e intermedia o contato entre elas com associações de apoio a refugiados.
Desafios na contratação e na retenção
Os desafios, porém, também estão presentes. Começam pelo idioma e passam até pela alimentação dos colaboradores. Cristiane lembra que, nas empresas em que todos falam a mesma língua já há problemas de comunicação. Ainda que já fossem realizadas medidas como incentivo ao aprendizado de português, por exemplo, a empresa teve que incluir tradutores em plantas da indústria para minimizar esta barreira.
A sensibilização das equipes foi outro ponto abordado na palestra. Karine, por sua vez, lembrou da necessidade de rever burocracias para a contratação, que podem impossibilitar a contratação de refugiados, como histórico escolar (muitos deixaram tudo para trás), título de eleitor ou comprovante de residência (refugiados podem estar ainda em moradias provisórias). “Há realmente alguns desafios iniciais, mas os benefícios também são muitos”, finalizou Karine.








